A mídia e o genocídio negro.


A mídia é uma das ferramentas mais poderosas de manutenção e legitimação das estruturas de poder. Quando o assunto é o genocídio negro, o papel da mídia não é apenas de missão, mas de participação ativa. O genocídio da população negra no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países é uma realidade brutal que a mídia disfarça, distorce e, muitas vezes, silenciada. Essa cumplicidade não é acidental, mas estruturada a partir de interesses do capital e do Estado, que utilizam a mídia como mecanismo de controle social e manipulação da percepção pública.


A cobertura midiática da violência contra pessoas negras frequentemente culpa as próprias vítimas. Quantas vezes a mídia, diante de um jovem negro assassinado pela polícia, ressalta seu envolvimento em crimes, suas “más companhias” ou até mesmo detalhes irrelevantes de seu comportamento? Ao isso, a mídia desumaniza essas vidas, transformando o genocídio em uma espécie de "consequência natural" da existência negra em contextos de pobreza e marginalização. A narrativa dominante propaga que a violência que atinge essa população é resultado de uma falha moral ou de caráter dos próprios indivíduos negros, ao invés de um reflexo de um sistema racista que os oprime.

Além do mais, a mídia se envolve em uma produção constante de medo. A figura do negro está associada à criminalidade, à ameaça, à periculosidade. O negro é a personificação do inimigo interno, cuja existência justifica o estado policial, as execuções sumárias, a vigilância constante e o encarceramento em massa. Essa demonização não é nova; ela faz parte de um projeto colonial e escravocrata que perdura até hoje, onde a "solução" para o "problema negro" é o controle e a eliminação. O genocídio é, portanto, uma política de Estado normalizada pela mídia, que ao promover o medo, garante a continuidade da repressão.

Mas o genocídio negro não é apenas físico. Ele também se manifesta culturalmente, e a mídia atua como um agente de desligamento e silenciamento. A invisibilidade da cultura negra, da história negra e da luta negra nas grandes redes de comunicação é parte integrante desse processo. Enquanto as violências são espetacularizadas, as potências, as resistências e as vidas negras são tratadas como irrelevantes ou exóticas. Assim, o genocídio opera em múltiplos níveis: o corpo negro é aniquilado, sua imagem é destruída e sua história é apagada.

A mídia faz parte do sistema que produz e perpetua o racismo estrutural. Ela construiu narrativas que reforçam a ideia de que o extermínio da população negra é resultado, uma tragédia sem danos. Ao ocultar o papel do Estado, da polícia, do capitalismo e das elites brancas, da mídia legítima o genocídio negro como uma tragédia natural, uma fatalidade urbana.

O que temos, então, é uma mídia cúmplice de um projeto genocida. Ela é uma das faces mais visíveis da estrutura de poder que se recusa a questionar o racismo enraizado na sociedade, atuando como um braço do próprio Estado racista. E, enquanto isso, as vidas negras continuam sendo ceifadas, enquanto o silêncio da mídia ecoa como uma arma de controle e opressão.


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