NEUTRALIDADE NÃO EXISTE!

Em um mundo construído em desigualdade, onde o poder determina quem vive e quem morre, onde as instituições mantêm estruturas de exploração, qualquer posição que alegue neutralidade já é uma escolha – e é uma escolha de apoio ao status quo. A “imparcialidade” é, na realidade, uma farsa confortável para aqueles que têm o privilégio de ignorar o sofrimento alheio, um escudo que protege quem prefere fechar os olhos enquanto outros corpos carregam o peso da opressão. A neutralidade é uma ilusão que serve aos interesses de quem está no controle. Ela é o silêncio diante da violência e o consentimento passivo com a injustiça.

Dizer-se neutro em uma sociedade de classes é um luxo. Quando se fala em “ficar em cima do muro”, o que se esconde é a recusa em confrontar o poder e suas ramificações. E essa recusa não é inofensiva. Em uma sociedade que naturaliza a violência contra os marginalizados, manter-se neutro é permitir que essa violência continue sem obstáculos. A neutralidade é a linha que conecta o opressor ao oprimido, uma linha que fortalece a primeira e fragiliza o segundo. Estar “fora” da disputa é escolher o lado do poder, porque só o poder sobrevive sem resistência.

Como disse Paulo Freire, “que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele.” Quando instituições, meios de comunicação ou indivíduos proclamam neutralidade, eles estão se alinhando com a lógica opressiva que desumaniza e explora. Essa ideia de que existe um “lado neutro” é, no fundo, um ideal manipulado por quem detém o poder para que nada mude. Nos tribunais, na política, nas corporações, a neutralidade aparece como um discurso que esconde uma agenda de manutenção do controle. Não existe imparcialidade em um sistema que constantemente marginaliza e oprime. Quem diz ser neutro diante de uma injustiça já está garantindo que essa injustiça se perpetue.

O sistema capitalista, patriarcal e racista se alimenta desse conceito de neutralidade. Ele não sobrevive sem o apoio velado dos que dizem não se envolver, dos que preferem a “imparcialidade” à indignação. A neutralidade é a armadilha dos que vivem na zona de conforto, dos que têm algo a perder caso a mudança ocorra. Ela é uma ferramenta de conivência, porque não se levantar é deixar que a violência continue inabalada. Ela se manifesta nas redes sociais, nos debates, nos espaços públicos, sempre como uma posição que desumaniza aqueles que são diariamente oprimidos.

O poder conhece bem o valor da “neutralidade”. Ele sabe que a neutralidade é um escudo para suas ações, uma cortina de fumaça que mantém as pessoas afastadas da luta. A verdadeira neutralidade não existe, porque todo ato, toda omissão, todo silêncio, carrega uma consequência. E enquanto houver quem acredite na neutralidade, o poder se fortalecerá e perpetuará sua dominação. Estar alheio à injustiça não é uma escolha individual sem impacto; é uma decisão que reverbera, que mata em silêncio, que destrói a dignidade de quem luta.

Para o anarquismo, a neutralidade é um mito perigoso, um jogo de manipulação. A verdadeira transformação social exige ação, posicionamento, coragem para enfrentar as estruturas que se sustentam na omissão e na passividade. Não se trata de escolher lados; trata-se de reconhecer que, em um sistema de dominação, toda escolha tem um peso. Ou você está com quem luta, ou você está sustentando a opressão.


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